- o ensaio sobre efemifobia finalmente está pronto.

- do you guess what i’m thinking of just this time. just this time.
proferindo azuis ao contrário:
tons mofados, amargos, desbotados,
inconscientes do meio-dia imenso
- um número maior que o meu.
somos os dois únicos versos de um poema: simples e profundo, como a fenda aberta no peito de quem o lê. eu ia te dizer isso assim que acordasse, mas, quando me dei conta, seu rosto era um lago plácido. macular este silêncio seria um pecado mortal. seus olhos se demoraram traçando constelações entre as gotas imóveis sobre o parabrisa, ou apenas buscassem relembrar algum detalhe do último sonho (que fora de um sono tão pacífico, de um ressonar tão suave, protegido da chuva lá fora) – não importa. para quem esperou até agora pelo nascer-dos-sóis, os dois segundos que levaram para seus olhos encontrarem os meus eram bastante. e… sim, mais um belo dia começava então.
eu, grato:
- bom dia. – você, tirando meu fôlego:
- te amo.
(o céu cinza sobre a estrada deserta, infinita, era irrelevante)
dois versos. quais? esses:
você que transfigura em flor
o arrepio que percorre a minha espinha.
a chuva cinza, insistente, escorre oleosa sobre os ladrilhos cor-de-musgo. um chuvisco velho como o tempo, retalhando-se lentamente, desprega dessa tarde parda. muito bem abrigados, porém, jogam gamão dois czares russos. e mesmo que as gotas duras continuassem por mais um século dedilhando na vidraça, sua queixa não se faria ouvir. abafam-na as cortinas densas, estampadas com delicados lírios.
~
um rinoceronte albino vestido em um fino paletó risca-de-giz serve vinho quente com biscoitos a uma boneca de porcelana francesa. à mesa podemos ver também o sr. e a sra. escaravelho, a viúva do flautista, o conde von schneid e algumas senhoritas sob um guarda-sol xadrez.
nada mais natural, é claro, que, a certa altura, mme deschamps oferecesse um brinde, levantando sua taça com licor de abóbora – uma concha marinha -, a todos os pombos da cidade de roma.
~
o céu era um papel celofane lilás no qual uma crescente de baunilha estava pobremente costurada. a estrela bocejante mais uma vez se esquece do seu próprio nome. qual a diferença já que agora os deuses se apegam a dias da semana (e quando acaba a sua vigília?
na biblioteca, alva e pura neve encerra-se entre as duras capas. a lombada, uma testemunha: entre dentes conspiram os cartógrafos.)
quanto a mim, continuo pendurando-me no galho de uma macieira em devaneios, sentindo a falta da minha antiga coleção de vinis e negando qualquer café, mesmo que com quadradinhos de chocolate, obrigado. penso naquela velha arca cheia de areia até a metade. e no poeta tocando flauta, sentado sobre o muro do jardim. mas me surpreendo, às vezes, ainda querendo saber se gostas de salmão, o que pensas sobre a catedral de estrasburgo ou se descendes de um faraó.
rimas fáceis: calafrios
fura o dedo, faz um pacto comigo
num segundo teu no meu,
por um segundo mais feliz.
- adriana calcanhotto
(update: do cazuza, na verdade!)

e somente naquele dia.
naquelas horas vestidas de beija-flor,
sob a luz recortada de verde pelas árvores
e sob seu sorriso que me desarmava.
apita a chaleira, grave e longa nota despertando-me dos devaneios.
quando tal mundo de polígonos e dimensões pouco numerosas levanta-se diante dos meus olhos, tamanha é a minha surpresa, que preciso tocá-lo. como um polvo, as estremidades de minhas falanges delimitam as primeiras formas que alcançam, para certificarem-se de sua existência. uma caneca imóvel sobre uma mesa, uma colher, um pequeno açucareiro.
e é sempre após os meus sentidos confirmarem todas as superfícies ali encontráveis (meu olfato ainda particularmente surpreso com cada metade de um melão cortado) que, ao sentir o sabor do meu sangue (por culpa dos legumes que se sucederam), me dou conta de que agora preciso saber o gosto do meu própro existir.