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quarta-feira de cinzas.

17 17UTC Novembro 17UTC 2009

eu estava com a vista cansada dessas paredes cor-de-mostarda, pálidas e indiferentes, desse telefone insistente, dessas vozes nauseadas tateando por qualquer migalha de informação e, principalmente, desses olhares sonolentos me cercando, olhares opacos, vazios, írises poças d’água de tão rasas. olhares de pessoas também cansadas dessas paredes, mas com os músculos atrofiados demais para se levantarem e correrem e pedirem por socorro. que foi o que eu fiz naquela quarta-feira. me esquivei dos arquivos ameaçadores e quase fui pego pelas secretárias na ante-sala, mas continuei correndo. o elevador não estava no sexto andar e eu não tinha muito tempo. subi as escadas, de dois em dois degraus, cheguei ao nono ofegante e grato aos céus pela porta para o terraço estar aberta, porta que empurrei com as duas mãos, escancarando-a para um céu escandalosamente azul. tanta luz quase me cegou. não havia um único fiapo de nuvem para macular aquele céu – azul, sim, arregaladamente azul, quase pornograficamente azul, embarassozamente azul. meus olhos desacostumados com tanta luz piscaram por repetidas vezes, e continuaram ainda a piscar por indefinidas outras, depois.

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o sol queimava meu couro cabeludo enquanto eu me aproximava do parapeito. queria abraçar a cidade mas os edifícios ao redor eram por demais altivos e imponentes, eles não queriam ser abraçados.
recolhi o meu sorriso. primeiro uma metade insegura, depois a outra metade frustrada, e olhei mais uma vez para o pedaço da cúpula celeste que era cabida a mim, um simples auxiliar admnistrativo. percebi que seu formato era igual a de uma peça de quebra-cabeça, que era quase branca de tão ensolarada e que parecia mais fácil de ser tocada por qualquer um que estivesse no topo dos outros prédios, mas não do prédio do departamento de arquivamento de processos e boletins de ocorrência da secretaria municipal de trânsito e correios.
meus olhos ardiam e se enchiam d’água antes que eu pudesse tomar conhecimento de maiores detalhes muito obrigado por ter ligado senhor tenha uma boa tarde.

(quando me perguntar sobre as estrelas #2)

17 17UTC Novembro 17UTC 2009

o gosto do vento nunca tem gosto de nada como deveria, disse a ele. quando ele é percebido entre os versos de um poema, por exemplo, pode ter para alguns um sabor amarelo-árido e o toque áspero da secura de braços desérticos  ou,  para outros,  o aroma de maçã-verde e textura similar a de suas mãos macias quando encontram as minhas.

(quando me perguntar sobre as estrelas #1)

26 26UTC Outubro 26UTC 2009

sua epiderme são as fronteiras do meu mundo. seus passos mantêm meu equilíbrio, mantêm-me sobre meus pés: que são seus olhos. seus lábios, meus braços. e as suas falanges, elas que o ápice de minha língua nervosamente encontra, elas são cada uma de minhas próprias terminações nervosas.

sobre como todo quadro tem uma razão de existir.

13 13UTC Agosto 13UTC 2009

hoje, na aula de sintaxe, tentaram provar o contrário.  no quadro, as palavras: a água mordeu a luz do menino. sintaticamente perfeito, semanticamente duvidoso. certo? seria, até que uma garota esperta disse lá do fundo que o menino morria afogado.
os herdeiros da modernidade podem encontrar significado e coerência em qualquer texto, dependendo do ponto de vista que se toma. desse modo, são amigos tanto os lençóis brancos que sorriem estrelas-do-mar quanto os feridos de guerra que fazem bolhas de sabão enquanto um par de flautas irlandesas recitam sonetos shakeasperianos.
para nós, essas frases, apesar de não serem ditas muitas vezes por dia, não estão em um outro plano, chamado de poético. são possíveis desde que são ditas e sua compreensão depende tão somente de um contexto bem providenciado. este outro plano, o poético, em nada diferencia do banal em que vivemos, já que, na verdade, encontra-se nele circunscrito. basta saber como olhar, ou colocar um par de lentes coloridas.

e sim, sim, tudo que é sólido pode perfeitamente evanescer no ar, de repente, bem na frente dos seus olhos. a qualquer momento.


agora mesmo já encontro traduções mais comuns para os exemplos supracitados. de onde vejo, os lençóis são uma praia em um dia ensolarado, coberta de estrelas-do-mar. consegue ver? sobe aqui nessa pedra, cuidado para não escorregar. naquela direção. bonito né? vamos catar conchinhas?

6 06UTC Agosto 06UTC 2009

me demitir desse mundo no qual uma cor tem sempre que ser mais colorida que a outra. continuar praticando, estou ficando bom em fazer meus dias passarem cada vez mais rápido. só um segundo para inspirar expirar inspirar. expirar.

não fosse a garganta seca seria um pedido de socorro.

conto de terror.

22 22UTC Julho 22UTC 2009

um domingo calado fracamente iluminava a casa, adentrando-a tímido pelas janelas. fim de uma tarde quente extinguindo-se preguiçosa. havia agora apenas alguns retalhos da luz amarela atirados nas paredes encardidas. o caminho você conhece bem. descalço, caminha a passos macios apesar que meio desequilibrados do sono recém-interrompido. um despertar tão calmo quanto o próprio sonho que tivera e um aroma suave, familiar, convidando-o sedutor. o silêncio denso era somente acompanhado pelo sibilar baixo e contínuo de uma panela sobre o fogo. você adentra a cozinha calidamente iluminada com os restos mortais de um sol que se esvaía sem pressa. e, em contraste com os outros cômodos vazios, você percebe que do outro lado da mesa sentava-se o diabo com as pernas cruzadas, uma viola descansando docemente sobre elas, a feição antes séria, compenetrada, quando nota sua presença lhe sorri uma meia boca de cumplicidade.

recordados.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

proferindo azuis ao contrário:
tons mofados, amargos, desbotados,
inconscientes do meio-dia imenso
- um número maior que o meu.

…com sabor de fruta mordida.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

somos os dois únicos versos de um poema: simples e profundo, como a fenda aberta no peito de quem o lê. eu ia te dizer isso assim que acordasse, mas, quando me dei conta, seu rosto era um lago plácido. macular este silêncio seria um pecado mortal. seus olhos se demoraram traçando constelações entre as gotas imóveis sobre o parabrisa, ou apenas buscassem relembrar algum detalhe do último sonho (que fora de um sono tão pacífico, de um ressonar tão suave, protegido da chuva lá fora) – não importa. para quem esperou até agora pelo nascer-dos-sóis, os dois segundos que levaram para seus olhos encontrarem os meus eram bastante. e… sim, mais um belo dia começava então.
eu, grato:
- bom dia. – você, tirando meu fôlego:
- te amo.

(o céu cinza sobre a estrada deserta, infinita, era irrelevante)

dois versos. quais? esses:

você que transfigura em flor
o arrepio que percorre a minha espinha.

retratos.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

a chuva cinza, insistente, escorre oleosa sobre os ladrilhos cor-de-musgo. um chuvisco velho como o tempo, retalhando-se lentamente, desprega dessa tarde parda. muito bem abrigados, porém, jogam gamão dois czares russos. e mesmo que as gotas duras continuassem por mais um século dedilhando na vidraça, sua queixa não se faria ouvir. abafam-na as cortinas densas, estampadas com delicados lírios.

~

um rinoceronte albino vestido em um fino paletó risca-de-giz serve vinho quente com biscoitos a uma boneca de porcelana francesa. à mesa podemos ver também o sr. e a sra. escaravelho, a viúva do flautista, o conde von schneid e algumas senhoritas sob um guarda-sol xadrez.
nada mais natural, é claro, que, a certa altura, mme deschamps oferecesse um brinde, levantando sua taça com licor de abóbora – uma concha marinha -, a todos os pombos da cidade de roma.

~

o céu era um papel celofane lilás no qual uma crescente de baunilha estava pobremente costurada. a estrela bocejante mais uma vez se esquece do seu próprio nome. qual a diferença já que agora os deuses se apegam a dias da semana (e quando acaba a sua vigília?
na biblioteca, alva e pura neve encerra-se entre as duras capas. a lombada, uma testemunha: entre dentes conspiram os cartógrafos.)
quanto a mim, continuo pendurando-me no galho de uma macieira em devaneios, sentindo a falta da minha antiga coleção de vinis e negando qualquer café, mesmo que com quadradinhos de chocolate, obrigado.  penso naquela velha arca cheia de areia até a metade. e no poeta tocando flauta, sentado sobre o muro do jardim. mas me surpreendo, às vezes, ainda querendo saber se gostas de salmão, o que pensas sobre a catedral de estrasburgo ou se descendes de um faraó.

30 30UTC Junho 30UTC 2009

elas

e somente naquele dia.

naquelas horas vestidas de beija-flor,

sob a luz recortada de verde pelas árvores

e sob seu sorriso que me desarmava.