eu estava com a vista cansada dessas paredes cor-de-mostarda, pálidas e indiferentes, desse telefone insistente, dessas vozes nauseadas tateando por qualquer migalha de informação e, principalmente, desses olhares sonolentos me cercando, olhares opacos, vazios, írises poças d’água de tão rasas. olhares de pessoas também cansadas dessas paredes, mas com os músculos atrofiados demais para se levantarem e correrem e pedirem por socorro. que foi o que eu fiz naquela quarta-feira. me esquivei dos arquivos ameaçadores e quase fui pego pelas secretárias na ante-sala, mas continuei correndo. o elevador não estava no sexto andar e eu não tinha muito tempo. subi as escadas, de dois em dois degraus, cheguei ao nono ofegante e grato aos céus pela porta para o terraço estar aberta, porta que empurrei com as duas mãos, escancarando-a para um céu escandalosamente azul. tanta luz quase me cegou. não havia um único fiapo de nuvem para macular aquele céu – azul, sim, arregaladamente azul, quase pornograficamente azul, embarassozamente azul. meus olhos desacostumados com tanta luz piscaram por repetidas vezes, e continuaram ainda a piscar por indefinidas outras, depois.
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o sol queimava meu couro cabeludo enquanto eu me aproximava do parapeito. queria abraçar a cidade mas os edifícios ao redor eram por demais altivos e imponentes, eles não queriam ser abraçados.
recolhi o meu sorriso. primeiro uma metade insegura, depois a outra metade frustrada, e olhei mais uma vez para o pedaço da cúpula celeste que era cabida a mim, um simples auxiliar admnistrativo. percebi que seu formato era igual a de uma peça de quebra-cabeça, que era quase branca de tão ensolarada e que parecia mais fácil de ser tocada por qualquer um que estivesse no topo dos outros prédios, mas não do prédio do departamento de arquivamento de processos e boletins de ocorrência da secretaria municipal de trânsito e correios.
meus olhos ardiam e se enchiam d’água antes que eu pudesse tomar conhecimento de maiores detalhes muito obrigado por ter ligado senhor tenha uma boa tarde.
