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retratos.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

a chuva cinza, insistente, escorre oleosa sobre os ladrilhos cor-de-musgo. um chuvisco velho como o tempo, retalhando-se lentamente, desprega dessa tarde parda. muito bem abrigados, porém, jogam gamão dois czares russos. e mesmo que as gotas duras continuassem por mais um século dedilhando na vidraça, sua queixa não se faria ouvir. abafam-na as cortinas densas, estampadas com delicados lírios.

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um rinoceronte albino vestido em um fino paletó risca-de-giz serve vinho quente com biscoitos a uma boneca de porcelana francesa. à mesa podemos ver também o sr. e a sra. escaravelho, a viúva do flautista, o conde von schneid e algumas senhoritas sob um guarda-sol xadrez.
nada mais natural, é claro, que, a certa altura, mme deschamps oferecesse um brinde, levantando sua taça com licor de abóbora – uma concha marinha -, a todos os pombos da cidade de roma.

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o céu era um papel celofane lilás no qual uma crescente de baunilha estava pobremente costurada. a estrela bocejante mais uma vez se esquece do seu próprio nome. qual a diferença já que agora os deuses se apegam a dias da semana (e quando acaba a sua vigília?
na biblioteca, alva e pura neve encerra-se entre as duras capas. a lombada, uma testemunha: entre dentes conspiram os cartógrafos.)
quanto a mim, continuo pendurando-me no galho de uma macieira em devaneios, sentindo a falta da minha antiga coleção de vinis e negando qualquer café, mesmo que com quadradinhos de chocolate, obrigado.  penso naquela velha arca cheia de areia até a metade. e no poeta tocando flauta, sentado sobre o muro do jardim. mas me surpreendo, às vezes, ainda querendo saber se gostas de salmão, o que pensas sobre a catedral de estrasburgo ou se descendes de um faraó.

25 25UTC Junho 25UTC 2009

a tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

- drummond

há uma baleia que emerge sua metade preferida do lodo do asfalto, para se frustrar em seguida. (até mesmo as sílfides que em tardes como essa tagarelavam em frênesi, penteavam meus cabelos com seus dedos de lavanda e sorriam para mim – só para mim -, migraram para o norte. levaram o sol, que aceitou o convite sem um segundo de hesitação, deixando seu trabalho a cargo dessa luz escassa, inseguramente branca)
há uma porta que range e uma garota de laranja.
e há freud demais por hoje.

urgência.

25 25UTC Junho 25UTC 2009

antes que o tédio a todos nos engula
- e nem ao menos possamos vislumbrar o céu
amarelo pálido de sua boca.

23 23UTC Junho 23UTC 2009

Molhou o bilhete de trem na caneca de leite enquanto observava os quadros renascentistas nas paredes de pedra.

Madonas e anjos barrocos participavam de orgias com santos e alienígenas.

Sam estivera durante o inverno procurando a maneira certa de distrair os cavalos selvagens que eram seus pensamentos.

Sonhos, sonhos: agora Sam vagava perdido entre os mundos deles e o concreto.

- Talvez o contrário, disse entre dentes.