Arquivo de Julho, 2009

22 22UTC Julho 22UTC 2009

pra que sonhar
a vida é tão desconhecida e mágica
que dorme às vezes do teu lado
calada, calada

pra que buscar o paraíso
se até o poeta fecha o livro
sente o perfume de uma flor no lixo
e fuxica, fuxica

- cazuza

conto de terror.

22 22UTC Julho 22UTC 2009

um domingo calado fracamente iluminava a casa, adentrando-a tímido pelas janelas. fim de uma tarde quente extinguindo-se preguiçosa. havia agora apenas alguns retalhos da luz amarela atirados nas paredes encardidas. o caminho você conhece bem. descalço, caminha a passos macios apesar que meio desequilibrados do sono recém-interrompido. um despertar tão calmo quanto o próprio sonho que tivera e um aroma suave, familiar, convidando-o sedutor. o silêncio denso era somente acompanhado pelo sibilar baixo e contínuo de uma panela sobre o fogo. você adentra a cozinha calidamente iluminada com os restos mortais de um sol que se esvaía sem pressa. e, em contraste com os outros cômodos vazios, você percebe que do outro lado da mesa sentava-se o diabo com as pernas cruzadas, uma viola descansando docemente sobre elas, a feição antes séria, compenetrada, quando nota sua presença lhe sorri uma meia boca de cumplicidade.

newsflash.

8 08UTC Julho 08UTC 2009

- o ensaio sobre efemifobia finalmente está pronto.

dd

such an ann.

7 07UTC Julho 07UTC 2009

- do you guess what i’m thinking of just this time. just this time.

recordados.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

proferindo azuis ao contrário:
tons mofados, amargos, desbotados,
inconscientes do meio-dia imenso
- um número maior que o meu.

…com sabor de fruta mordida.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

somos os dois únicos versos de um poema: simples e profundo, como a fenda aberta no peito de quem o lê. eu ia te dizer isso assim que acordasse, mas, quando me dei conta, seu rosto era um lago plácido. macular este silêncio seria um pecado mortal. seus olhos se demoraram traçando constelações entre as gotas imóveis sobre o parabrisa, ou apenas buscassem relembrar algum detalhe do último sonho (que fora de um sono tão pacífico, de um ressonar tão suave, protegido da chuva lá fora) – não importa. para quem esperou até agora pelo nascer-dos-sóis, os dois segundos que levaram para seus olhos encontrarem os meus eram bastante. e… sim, mais um belo dia começava então.
eu, grato:
- bom dia. – você, tirando meu fôlego:
- te amo.

(o céu cinza sobre a estrada deserta, infinita, era irrelevante)

dois versos. quais? esses:

você que transfigura em flor
o arrepio que percorre a minha espinha.

retratos.

6 06UTC Julho 06UTC 2009

a chuva cinza, insistente, escorre oleosa sobre os ladrilhos cor-de-musgo. um chuvisco velho como o tempo, retalhando-se lentamente, desprega dessa tarde parda. muito bem abrigados, porém, jogam gamão dois czares russos. e mesmo que as gotas duras continuassem por mais um século dedilhando na vidraça, sua queixa não se faria ouvir. abafam-na as cortinas densas, estampadas com delicados lírios.

~

um rinoceronte albino vestido em um fino paletó risca-de-giz serve vinho quente com biscoitos a uma boneca de porcelana francesa. à mesa podemos ver também o sr. e a sra. escaravelho, a viúva do flautista, o conde von schneid e algumas senhoritas sob um guarda-sol xadrez.
nada mais natural, é claro, que, a certa altura, mme deschamps oferecesse um brinde, levantando sua taça com licor de abóbora – uma concha marinha -, a todos os pombos da cidade de roma.

~

o céu era um papel celofane lilás no qual uma crescente de baunilha estava pobremente costurada. a estrela bocejante mais uma vez se esquece do seu próprio nome. qual a diferença já que agora os deuses se apegam a dias da semana (e quando acaba a sua vigília?
na biblioteca, alva e pura neve encerra-se entre as duras capas. a lombada, uma testemunha: entre dentes conspiram os cartógrafos.)
quanto a mim, continuo pendurando-me no galho de uma macieira em devaneios, sentindo a falta da minha antiga coleção de vinis e negando qualquer café, mesmo que com quadradinhos de chocolate, obrigado.  penso naquela velha arca cheia de areia até a metade. e no poeta tocando flauta, sentado sobre o muro do jardim. mas me surpreendo, às vezes, ainda querendo saber se gostas de salmão, o que pensas sobre a catedral de estrasburgo ou se descendes de um faraó.

mais feliz.

1 01UTC Julho 01UTC 2009

rimas fáceis: calafrios
fura o dedo, faz um pacto comigo
num segundo teu no meu,
por um segundo mais feliz.

- adriana calcanhotto

(update: do cazuza, na verdade!)