
e somente naquele dia.
naquelas horas vestidas de beija-flor,
sob a luz recortada de verde pelas árvores
e sob seu sorriso que me desarmava.

e somente naquele dia.
naquelas horas vestidas de beija-flor,
sob a luz recortada de verde pelas árvores
e sob seu sorriso que me desarmava.
apita a chaleira, grave e longa nota despertando-me dos devaneios.
quando tal mundo de polígonos e dimensões pouco numerosas levanta-se diante dos meus olhos, tamanha é a minha surpresa, que preciso tocá-lo. como um polvo, as estremidades de minhas falanges delimitam as primeiras formas que alcançam, para certificarem-se de sua existência. uma caneca imóvel sobre uma mesa, uma colher, um pequeno açucareiro.
e é sempre após os meus sentidos confirmarem todas as superfícies ali encontráveis (meu olfato ainda particularmente surpreso com cada metade de um melão cortado) que, ao sentir o sabor do meu sangue (por culpa dos legumes que se sucederam), me dou conta de que agora preciso saber o gosto do meu própro existir.
je connais trop ta bouche, bouche de métro
les bateaux mouche et la couleur de l’eau.
- camille

a noite, vesti-la; e entalhar isso nas águas do rio,
para que os peixes comuniquem aos pássaros
uma forma mais sutil de voar.
- wesley peres
sempre quis escrever um bom livro de romance. algo que te envolvesse em tal nuvem de sentimentos, meu amor, que te tornasse de repente consciente de cada centímetro de sua pele. você sentiria o aroma marinho a cada página que virasse, como uma onda, ao que responderiam os pelos dos seus braços. palavras que se gravassem em sua carne, que te fizessem sentir cravadas no meio da garganta, te impedindo de engolir. e que, antes de tudo, te preenchessem esse vazio no seu peito, essa ferida que me dói tanto ver. eu tento em desespero fazê-la com que se feche. dedico as horas da minha noite velando seu leito, contornando-a com meu indicador cauteloso, e seu mapa continua o mesmo. não importa que o livro fosse em parte ficção, ou que às vezes eu fosse um pouco covarde e cruel demais, suas lágrimas (elas sim) sinceras o valeriam para mim.
a tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
- drummond
há uma baleia que emerge sua metade preferida do lodo do asfalto, para se frustrar em seguida. (até mesmo as sílfides que em tardes como essa tagarelavam em frênesi, penteavam meus cabelos com seus dedos de lavanda e sorriam para mim – só para mim -, migraram para o norte. levaram o sol, que aceitou o convite sem um segundo de hesitação, deixando seu trabalho a cargo dessa luz escassa, inseguramente branca)
há uma porta que range e uma garota de laranja.
e há freud demais por hoje.
antes que o tédio a todos nos engula
- e nem ao menos possamos vislumbrar o céu
amarelo pálido de sua boca.
presos num conto de fadas
apenas a dois encontraremos o caminho
presos num gobelino
que nós dois tecemos juntos
isolados de todos
com uma língua que apenas você e eu entendemos.
- jostein gaarder
Molhou o bilhete de trem na caneca de leite enquanto observava os quadros renascentistas nas paredes de pedra.
Madonas e anjos barrocos participavam de orgias com santos e alienígenas.
Sam estivera durante o inverno procurando a maneira certa de distrair os cavalos selvagens que eram seus pensamentos.
Sonhos, sonhos: agora Sam vagava perdido entre os mundos deles e o concreto.
- Talvez o contrário, disse entre dentes.