8 08UTC Dezembro 08UTC 2009 por Luís

c’est la vie qu’on mène
anxiolytiques et café crème

quarta-feira de cinzas.

17 17UTC Novembro 17UTC 2009 por Luís

eu estava com a vista cansada dessas paredes cor-de-mostarda, pálidas e indiferentes, desse telefone insistente, dessas vozes nauseadas tateando por qualquer migalha de informação e, principalmente, desses olhares sonolentos me cercando, olhares opacos, vazios, írises poças d’água de tão rasas. olhares de pessoas também cansadas dessas paredes, mas com os músculos atrofiados demais para se levantarem e correrem e pedirem por socorro. que foi o que eu fiz naquela quarta-feira. me esquivei dos arquivos ameaçadores e quase fui pego pelas secretárias na ante-sala, mas continuei correndo. o elevador não estava no sexto andar e eu não tinha muito tempo. subi as escadas, de dois em dois degraus, cheguei ao nono ofegante e grato aos céus pela porta para o terraço estar aberta, porta que empurrei com as duas mãos, escancarando-a para um céu escandalosamente azul. tanta luz quase me cegou. não havia um único fiapo de nuvem para macular aquele céu – azul, sim, arregaladamente azul, quase pornograficamente azul, embarassozamente azul. meus olhos desacostumados com tanta luz piscaram por repetidas vezes, e continuaram ainda a piscar por indefinidas outras, depois.

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o sol queimava meu couro cabeludo enquanto eu me aproximava do parapeito. queria abraçar a cidade mas os edifícios ao redor eram por demais altivos e imponentes, eles não queriam ser abraçados.
recolhi o meu sorriso. primeiro uma metade insegura, depois a outra metade frustrada, e olhei mais uma vez para o pedaço da cúpula celeste que era cabida a mim, um simples auxiliar admnistrativo. percebi que seu formato era igual a de uma peça de quebra-cabeça, que era quase branca de tão ensolarada e que parecia mais fácil de ser tocada por qualquer um que estivesse no topo dos outros prédios, mas não do prédio do departamento de arquivamento de processos e boletins de ocorrência da secretaria municipal de trânsito e correios.
meus olhos ardiam e se enchiam d’água antes que eu pudesse tomar conhecimento de maiores detalhes muito obrigado por ter ligado senhor tenha uma boa tarde.

(quando me perguntar sobre as estrelas #2)

17 17UTC Novembro 17UTC 2009 por Luís

o gosto do vento nunca tem gosto de nada como deveria, disse a ele. quando ele é percebido entre os versos de um poema, por exemplo, pode ter para alguns um sabor amarelo-árido e o toque áspero da secura de braços desérticos  ou,  para outros,  o aroma de maçã-verde e textura similar a de suas mãos macias quando encontram as minhas.

(quando me perguntar sobre as estrelas #1)

26 26UTC Outubro 26UTC 2009 por Luís

sua epiderme são as fronteiras do meu mundo. seus passos mantêm meu equilíbrio, mantêm-me sobre meus pés: que são seus olhos. seus lábios, meus braços. e as suas falanges, elas que o ápice de minha língua nervosamente encontra, elas são cada uma de minhas próprias terminações nervosas.

14 14UTC Outubro 14UTC 2009 por Luís

#2

14 14UTC Outubro 14UTC 2009 por Luís

#1

sobre como todo quadro tem uma razão de existir.

13 13UTC Agosto 13UTC 2009 por Luís

hoje, na aula de sintaxe, tentaram provar o contrário.  no quadro, as palavras: a água mordeu a luz do menino. sintaticamente perfeito, semanticamente duvidoso. certo? seria, até que uma garota esperta disse lá do fundo que o menino morria afogado.
os herdeiros da modernidade podem encontrar significado e coerência em qualquer texto, dependendo do ponto de vista que se toma. desse modo, são amigos tanto os lençóis brancos que sorriem estrelas-do-mar quanto os feridos de guerra que fazem bolhas de sabão enquanto um par de flautas irlandesas recitam sonetos shakeasperianos.
para nós, essas frases, apesar de não serem ditas muitas vezes por dia, não estão em um outro plano, chamado de poético. são possíveis desde que são ditas e sua compreensão depende tão somente de um contexto bem providenciado. este outro plano, o poético, em nada diferencia do banal em que vivemos, já que, na verdade, encontra-se nele circunscrito. basta saber como olhar, ou colocar um par de lentes coloridas.

e sim, sim, tudo que é sólido pode perfeitamente evanescer no ar, de repente, bem na frente dos seus olhos. a qualquer momento.


agora mesmo já encontro traduções mais comuns para os exemplos supracitados. de onde vejo, os lençóis são uma praia em um dia ensolarado, coberta de estrelas-do-mar. consegue ver? sobe aqui nessa pedra, cuidado para não escorregar. naquela direção. bonito né? vamos catar conchinhas?

6 06UTC Agosto 06UTC 2009 por Luís

me demitir desse mundo no qual uma cor tem sempre que ser mais colorida que a outra. continuar praticando, estou ficando bom em fazer meus dias passarem cada vez mais rápido. só um segundo para inspirar expirar inspirar. expirar.

não fosse a garganta seca seria um pedido de socorro.

22 22UTC Julho 22UTC 2009 por Luís

pra que sonhar
a vida é tão desconhecida e mágica
que dorme às vezes do teu lado
calada, calada

pra que buscar o paraíso
se até o poeta fecha o livro
sente o perfume de uma flor no lixo
e fuxica, fuxica

- cazuza

conto de terror.

22 22UTC Julho 22UTC 2009 por Luís

um domingo calado fracamente iluminava a casa, adentrando-a tímido pelas janelas. fim de uma tarde quente extinguindo-se preguiçosa. havia agora apenas alguns retalhos da luz amarela atirados nas paredes encardidas. o caminho você conhece bem. descalço, caminha a passos macios apesar que meio desequilibrados do sono recém-interrompido. um despertar tão calmo quanto o próprio sonho que tivera e um aroma suave, familiar, convidando-o sedutor. o silêncio denso era somente acompanhado pelo sibilar baixo e contínuo de uma panela sobre o fogo. você adentra a cozinha calidamente iluminada com os restos mortais de um sol que se esvaía sem pressa. e, em contraste com os outros cômodos vazios, você percebe que do outro lado da mesa sentava-se o diabo com as pernas cruzadas, uma viola descansando docemente sobre elas, a feição antes séria, compenetrada, quando nota sua presença lhe sorri uma meia boca de cumplicidade.